terça-feira, 12 de julho de 2011

As formigas podem ser transmissoras de doenças


FORMIGAS (HYMENOPTERA: FORMICIDAE) COMO VETORES DE BACTÉRIAS EM DOIS HOSPITAIS DO MUNICÍPIO DE DIVINÓPOLIS, MINAS GERAIS: RESULTADOS PARCIAIS

Paula Fernandes dos Santos¹; Alysson Rodrigo Fonseca2; Newton Moreno Sanches 2; Josimar Ângelo dos Santos3

1Bolsista do CNPq, aluna do curso de Ciências Biológicas da FUNEDI/UEMG; 2Professores orientadores da FUNEDI/UEMG; 3Bolsista PAPq, aluno do curso de Ciências Biológicas da FUNEDI/UEMG

Introdução
Os problemas associados à urbanização incluem, além da concentração exagerada de pessoas, aumento da poluição e redução no controle sanitário e a transmissão de doenças por artrópodes. Entre eles, os insetos sociais, particularmente as formigas, são os animais que melhor se adaptaram ao ambiente urbano, afetando a qualidade de vida da população pela possibilidade de afetar estruturas residenciais ou ainda pela ameaça que podem causar à saúde pública (OLIVEIRA e CAMPOS-FARINHA, 2005).
Quando em ambientes urbanos, especialmente em hospitais, podem atuar como vetores mecânicos de microrganismos patogênicos. Os fatores que influem a presença de formigas nos hospitais são a estrutura arquitetônica, proximidade a residências (que estimula a migração desses insetos), embalagens de alguns medicamentos que podem trazer ninhos de formigas para o ambiente interno, circulação de um grande número de pessoas com roupas e objetos que podem conter ninhos de formigas, além de alimentos que funcionam como atrativo extra (ZARZUELA et. al. 2002). Assim, o objetivo deste trabalho foi realizar o levantamento da distribuição espacial de formigas nas dependências físicas de dois hospitais regionais de médio porte da cidade de Divinópolis, MG, buscando-se analisar a presença de bactérias associadas a elas.

Metodologia
As formigas foram coletadas mensalmente durante seis meses em dois hospitais do município de Divinópolis, MG. Os hospitais foram nomeados como A e B, sendo o hospital A, de maior porte, atendendo pelo Sistema Único de Saúde e por planos particulares e o Hospital B, um hospital de menor porte, que atende somente por planos particulares. As iscas foram colocadas em 21 pontos diferentes dos hospitais, sendo estes: almoxarifado, ambulatório berçário, centro cirúrgico, central de esterilização, clínica médica, dois corredores, cozinha, farmácia, laboratório, maternidade, capela, radiologia, centro de terapia intensiva, cinco quartos e área externa. Em cada ponto de coleta foram colocadas três iscas em três diferentes tubos de ensaio (50mm de comprimento x 7 mm de diâmetro), esterelizados a 121°C por 20 minutos e posteriormente identificados. As iscas não tóxicas consistiram de (1) bolo de abacaxi e mel; (2) sardinha e (3) açúcar e mel. Em cada ponto os tubos permaneceram no chão por duas horas. Amostras de formigas coletadas em cada tubo foram assepticamente transferidas para tubos ependorff contendo 1mL de água peptonada estéril, onde foram mantidas por uma hora. Posteriormente, as formigas foram transferidas para álcool 70% para posterior identificação. Um volume de 100 ml de água peptonada de cada tubo foram transferidos para placas contendo Ágar Mueller Hinton e incubados a 35°C por 24 e 48 horas. Após este período, as colônias foram analisadas quanto ao número, aspecto e morfologia. As colônias foram transferidas separadamente para tubos com Ágar Mueller Hinton inclinado e incubadas a 35°C por 24-48 horas. Após o crescimento as colônias foram suspensas em água destilada estéril e inoculadas em placas de Petri contendo os seguintes meios de cultura: Ágar Manitol Salgado, Ágar Cetrimida, Ágar MacConkey, Ágar Teague, Caldo Azida-Dextrose e Meio Infuso Cérebro-Coração. As formigas coletadas foram identificadas segundo a chave de classificação proposta por Bueno e Campos-Farinha (1999).

Resultados Parciais

As tabelas abaixo (Tabelas A e B) mostram a relação entre formigas e bactérias / nº de colônias nos dois hospitais alvo de estudo.

 Tabela 01: Relação entre formigas e bactérias/nº de colônias no Hospital A, município de Divinópolis, MG.

FORMIGAS                                                                                        BACTÉRIAS                                                 Nº DE COLÔNIAS
Pheidole sp1 e sp2
Staphylococcus patogênico
275

Enterococcus
2

Streptococcus
237

Pseudomonas aeruginosa
509

Coliformes fecais
892

E. coli
+2000
Solenopsis sp.
Staphylococcus não patogênico
107

Streptococcus
1

Staphylococcus patogênico
+2000

Enterococcus
+2000
Tapinoma melanocephalum
Enterococcus
154

Streptococcus
150

Staphylococcus patogênico
2
Odontomachus sp.
Pseudomonas aeruginosa
1

E. coli
1

Streptococcus
+2000
Wasmannia auropunctata
Staphylococcus patogênico
+2000

Streptococcus
1



De acordo com RITCHMANN (2005), Pseudomonas aeruginosa tem sido responsável pela maioria das pneumonias hospitalares. Já nos casos de infecção hospitalar e bacteremia, está associada ao cateterismo vesical e venoso central, entubações e neurotropenia grave. No que se refere à E.coli, mesmo fazendo parte do trato gastrointestinal dos seres humanos, tem sido reportada como um dos agentes mais importantes das infecções extra-intestinais, como diarréias em adultos e crianças e cerato-conjuntivite experimental, uma infecção semelhante à shigelose (MITAK e MITAK, 1981)

Tabela 02: Relação entre formigas e bactérias / nº de colônias de Hospital B, município de Divinópolis, MG.

FORMIGAS                                                                                        BACTÉRIAS                                                    Nº DE COLÔNIAS
Linepithema humile
E. coli
259

Streptococcus
18
Pheidole sp1 e sp2
Staphylococcus patogênico
909

Streptococcus
21
Acromyrmex sp.
Pseudomonas aeruginosa
211

Coliformes fecais
21

Staphylococcus patogênico
211

Streptococcus
102
Solenopsis sp.
Enterococcus
11
Odontomachus sp.
Coliformes fecais
12

Staphylococcus patogênico
900

Enterococcus
903

Staphylococcus não patogênico
5
Camponotus sp1 e sp2
Estreptococcus
+2000
Wasmannia auropunctata
Estreptococcus
562

Pseudomonas aeruginosa
4

Staphylococcus não patogênico
1


De acordo com RITCHMANN (2005) a veiculação de Staphylococcus por formigas em ambientes hospitalares é relevante, especialmente pelo fato deste microrganismo ser o patógeno que mais comumente causa infecções hospitalares, sendo altamente virulento. S. aureus produz pústulas, abscessos ou furúnculos, impetigo, feridas infeccionadas, pielite, cistite, intoxicação alimentar, pneumonia, empiema, osteomielite, artrite, meningite, sepse, abscesso cerebral, endocardite, enterite e supuração em quase todos os órgãos. S. epidermidis, ocasionalmente causa infecções, inclusive sepse e S. saprophyticus tem predileção pelo trato genito-urinário, especialmente em mulheres jovens, nas quais causa infecção aguda (MITAK e MITAK, 1981).
Enterococcus sp. é causadora de infecções hospitalares, particularmente em unidades de terapia intensiva (JALWETZ et. al., 1998). Os estreptococos estão amplamente distribuídos na natureza, sendo responsáveis por patologias como erisipela, escarlatina, glomerulonefrite aguda, febre reumática, infecções da garganta, ouvido, sinus, faringite, meningite, pneumonia, endocardite aguda, infecções do trato genitourinário e de ferimentos, sepse, dentre outras (MITAK e MITAK, 1981).

Considerações Finais

As formigas mostraram-se potencialmente importantes como vetores de microorganismos patogênicos, podendo ser causadoras de infecções hospitalares. Diante desses fatos, é inevitável que se pense em medidas de prevenção/controle para esses artrópodes nos hospitais, já que mostra-se real a possibilidade de veiculação de microrganismos patogênicos.

Referências

BUENO, O.C. CAMPOS-FARINHA, A.E.C. As Formigas Domésticas. In: MARICONI F.A.M. Insetos e outros invasores de residências. Piracicaba: Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz. 1999. p.135-180.

JAWETZ, E. MELNICK, J. ADELBERG, E.A. Microbiologia Médica. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 1998. 846p.

MITAK, D.M. MITAK, K.W. Dicionário de Bactérias: um guia para o médico.  São Paulo: Lilly Laboratórios. 1981. 243p.

OLIVEIRA, M.F. de. CAMPOS-FARINHA, A.E.C. Formigas urbanas do município de Maringá, PR, e suas implicações. Arquivo do Instituto Biológico. São Paulo, SP. v.72. n.1. p. 33-39. jan./ mar., 2005.

RITCHMANN, R. Guia Prático de Controle de Infecção Hospitalar. Soriak Comércio e Promoções S.A. Distribuído por Eurofarma Laboratórios Ltda. São Paulo, SP. 2005.

ZARZUELA, M.F.M. RIBEIRO, M.C.C. CAMPOS-FARINHA, A.E.C. Distribuição de formigas urbanas em um hospital da região sudeste do Brasil. Arquivo do Instituto Biológico. São Paulo, SP. v.69. n.1. p.85-87. jan./ mar., 2002.

Agências de Fomento: Bolsas de iniciação científica: CNPq e PAPq.

Palavras-chave: Formigas urbanas, hospital, infecção hospitalar.





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